Dentre tantas pessoas que circulavam no local, um casal chamava atenção, verdadeiros estradeiros: roupas de couro, lenços, correntes e botas, davam vida a um lobo da estrada, Seu Gayer como chamado pelos membros do grupo de Santa Maria, os Lobos Rio Grandenses. Ele anda de moto desde a década de 70, junto com ele há 14 anos a sua esposa Shirley, professora de educação física aposentada, com 54 anos e muita disposição. O casal vive viajando, mostrando que a idade não tem limite. Em cima da Virago 250 cilindradas. As maletas de couro atrás da moto carregam todos os equipamentos necessários para dias de viagens, como barraca, roupas, material de higiene e dentro tantos outros. Assim também uma figura contraditória pertencente ao mesmo moto grupo chamava a atenção um senhor com seus 55 anos, com roupa de couro preta, lenço na cabeça e correntes ao lado de sua moto, uma Miragem 150 cilindradas, toda estilizada. Ninguém poderia acreditar que esse homem era um advogado, delegado, defensor da lei. Apesar das roupas de couro escuras, das tatuagens, piercings, correntes e as “caras de maus” existem, verdadeiros irmãos, que se ajudam, unidos eles confraternizam por uma simples paixão. “Quem ve cara, não vê coração” afirma ao motociclista João Amorim. São médicos, delegados, aposentados, casais e até mesmo famílias e não importa cilindrada, marca ou modelo, eles simplesmente não sabem explicar as pessoas porque viajam de moto, para os que compreendem, nenhuma palavra é necessária, para os que não compreendem nenhuma explicação é possível. São eles que fazem do céu o seu teto, da estrada o seu destino e da liberdade uma religião.

Um grupo de amigos apaixonados pelo um estilo de vida diferente decidiu criar a Tribo do Vento, que hoje possui 19 integrantes, com a faixa etária entre 30 e 50 anos, pais de família, administradores e empresários com diversas motos. Que a cada quinze dias se reúnem para jantas beneficentes em prol da comunidade. O moto grupo que já tem quatro anos de histórias com muitas viagens dentro e fora do estado. E na busca por concretizar a sua marca na comunidade cruzaltensse, surgiu a idéia no aniversário de um ano do moto clube realizar uma festa, um encontro para unir todos os apaixonados pelo motociclismo. Mas nem a Tribo do Vento esperava que a idéia pudesse dar tão certo, desde o primeiro Motofest, foi um sucesso. A A 4
Já na quarta edição não era difícil de ouvir correções entre os membros dos motos grupos, quando chamados de motoqueiros, pois para quem não sabe motoqueiro, é quase uma ofensa. O famoso motoqueiro, é aquele que usa a moto como veiculo de locomoção, seja para trabalho ou por falta de opção, os motos taxis, os tele-entregas e assim por diante. O que mais diferencia um motociclista de um motoqueiro é o acreditar que a vida é uma grande viagem, é a paixão pela liberdade o poder ir, ir mais longe, sentir o vento, para encontrar amigos e fazer amigos, sair da rotina do dia a dia se equilibrando na moto para voltar e se equilibrar na vida, resumindo um motociclista é aquele que passa um bom tempo na estrada viajando. Os motociclistas do estado possuem uma associação conhecida como AMO-RS associação dos motociclistas do Rio Grande do Sul, basta entrar no site; amo-rs.com.br para se cadastrar e estar informado sobre evento, encontros e festas, dentro e fora do país.
Mas que paixão é essa que nem eles sabem explicar? Liberdade foi à palavra mais usada para definir essa essência. Nem eles ao certo sabem, mas é essa tal liberdade que acompanha seu Amorim, por mais de vinte cinco anos, ou melhor, João Amorim, um policial da reserva aposentado, fundador do moto grupo Caranchos, com seus cinqüentas anos de vida, e de boa parte dela dedicada ao motociclismo. Um senhor, com muitas viagens, estradas, causas, contos e histórias de vida. Um homem que vê a estrada como sua casa, sua liberdade e sua vida, alguém que respeita a humildade, os amigos e acima d tudo sua família. Alguém que sabe dividir seu tempo entre a estrada e o destino, que não abre mão de rever gente conhecida, muito menos se importa em dormir no chão, pegar chuva, vento e o que vier pela frente. Desde que ele esteja em cima de sua moto, sua Shadow 600, com uma cor única, que faz você lembrar o céu azul vinil e ao mesmo tempo de um mar calmo e cristalino, com um ronco “lindo” uma moto, com muitas passagens, idas e vindas, que leva com ela em seu taque o desenho de uma águia, que sempre para lembra o sentido disso tudo, dos quilômetros rodados, da chuva no corpo, dos perigos da estrada, mas do que vale a liberdade, sem nada disso? Pois bem seu Amorim é a prova que a liberdade almejada por muitos está bem em nosso rosto, é como sentir um forte vento na rua, mas com a velocidade que você pode controlar, com os perigos que você nem sabe onde vai encontrar, com a fidelidade de verdadeiros amigos, unidos por um simples motivo, a comemoração de viver por uma paixão.
Talvez esses motociclistas compreendam porque o cachorro vai com a cabeça para fora da janela do carro, talvez eles saibam o porquê dar valor a uma amizade, o dividir a carne, a bebida, o mate, a gasolina e a estrada. Eles sabem que não importa onde têm que ir. Aonde chegar, basta ir de moto, eles fazem da vida uma verdadeira viagem, possuem a palavra liberdade tatuada na alma e o respeito escrito no peito. Nada e nem ninguém pode segurar um coração que bate sobre duas rodas.
Emilady Malheiros